As companhias aéreas são todas iguais?


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Na hora de comprar uma passagem, muita gente divide as companhias aéreas em apenas dois grupos: as que estão com um preço acessível e as que, aparentemente, estão vendendo o avião junto. É compreensível. Mas basta observar os serviços oferecidos, os destinos atendidos e até a maneira de vender os bilhetes para perceber que essas empresas podem ter propostas bastante diferentes.

E não estamos falando apenas de receber um sanduíche ou de precisar comprá-lo durante o voo. Termos como low cost, regional, cargueira e estatal aparecem com frequência quando o assunto é aviação, mas o que exatamente eles dizem sobre uma companhia? Uma empresa regional também pode ser de baixo custo? E por que algumas concentram seus voos em grandes hubs, enquanto outras preferem conectar diretamente uma cidade à outra?

No artigo de hoje, vamos conhecer os principais tipos de companhias aéreas e entender como elas se organizam, com exemplos de empresas que você provavelmente conhece — e outras que talvez ainda não tenham aparecido nas suas pesquisas. Fique conosco até o final para descobrir o que essas classificações significam e como elas ajudam a explicar as diferenças entre as companhias com as quais viajamos.

Regulares ou fretadas?

A primeira diferença entre as companhias aéreas está na maneira como os voos são oferecidos. Nas operações regulares, a companhia divulga antecipadamente suas rotas, seus horários e vende os assentos ao público. Você consulta a programação e escolhe entre as opções disponíveis. Já nas operações fretadas, também chamadas de charter, o voo é organizado para atender a uma contratação específica, com trajeto, data e horário combinados entre o cliente e a empresa.

A LATAM é um exemplo conhecido de companhia regular. Quando você pesquisa uma passagem no site, escolhe um assento em um dos voos oferecidos pela empresa. A programação já existe e você apenas decide qual opção cabe na sua agenda — e, principalmente, no seu bolso.

Já a britânica Titan Airways trabalha com fretamentos para equipes esportivas, empresas e operadoras de turismo. Um clube pode contratar um voo para transportar sua delegação, enquanto uma operadora pode contratar uma sequência de voos para levar turistas durante uma temporada específica. Nesses casos, a programação é construída para atender ao contratante, em vez de cada passageiro escolher individualmente um voo pré-existente.

As duas modalidades podem coexistir na mesma empresa, como acontece com a LATAM, que também realiza fretamentos.

Grandes, nacionais e regionais

Além da maneira como oferecem seus voos, as companhias também podem ser diferenciadas pelo porte e pelos mercados que atendem. Nessa classificação, porém, alguns nomes precisam de uma explicação para ficarem claros.

Nos Estados Unidos, a receita operacional anual é o critério utilizado para definir as grandes companhias, conhecidas como majors. Essa categoria reúne empresas que ultrapassam um bilhão de dólares por ano, como a American Airlines.

As chamadas nacionais ficam na faixa acima de cem milhões até um bilhão de dólares por ano, como a Avelo. Nesse contexto, “nacional” indica o porte financeiro da empresa, que também pode atender a destinos internacionais.

Já as regionais se caracterizam por atender a mercados menores e conectar essas localidades a centros maiores, geralmente com aeronaves de menor capacidade. Podem trabalhar com uma marca própria ou operar para outras companhias. A SkyWest, por exemplo, realiza voos em parceria com a United e a Delta, ajudando a alimentar suas redes de conexões.

As regionais também podem alcançar grande porte financeiro. A própria SkyWest aparece entre as majors graças à sua receita. Ela é regional pelo papel que desempenha e grande pelo porte financeiro.

Tradicionais, low cost e ultra low cost

Companhias de tamanho semelhante podem oferecer serviços bastante diferentes. Para entender essas diferenças, precisamos olhar para seus modelos de negócio.

As tradicionais costumam combinar diferentes classes de cabine, programas de fidelidade, salas VIP e redes de voos que permitem diversas conexões. Muitas são chamadas de legacy, termo originalmente associado às companhias americanas que já operavam antes da desregulamentação de 1978. A American Airlines é um exemplo desse modelo, com opções que vão da econômica básica a cabines com mais conforto e serviços. A inclusão dessas comodidades depende da tarifa e da classe de cabine escolhidas.

Já as low cost, ou companhias de baixo custo, procuram reduzir despesas simplificando a operação. Para isso, costumam padronizar a frota, diminuir o tempo das aeronaves no solo entre os voos e utilizá-las por mais horas ao dia. A EasyJet segue esse modelo, oferecendo um serviço básico e cobrando separadamente por adicionais, como bagagem despachada e marcação de assento. Assim, quem viaja apenas com uma pequena bolsa pode contratar um conjunto de serviços mais simples do que quem está levando a casa nas férias.

Nas ultra low cost, a redução de custos e a venda de serviços adicionais são exploradas de maneira ainda mais intensa. A configuração das cabines costuma priorizar uma quantidade maior de assentos, ajudando a diluir o custo por passageiro transportado. A Frontier, nos Estados Unidos, é um exemplo, combinando essa estrutura com tarifas básicas e serviços opcionais. Para o passageiro, isso exige conferir o que está incluído antes de comparar o preço com o de outra companhia.

A cobrança por serviços adicionais também faz parte do modelo das low cost, como mostra a própria EasyJet. E uma companhia de baixo custo pode cobrar mais do que uma concorrente em determinada viagem. As tarifas variam conforme a procura e a disponibilidade de assentos. A expressão “baixo custo” descreve apenas a estrutura de custos da empresa.

De quem é a companhia?

Depois do modelo de negócio, podemos observar quem é o dono da companhia. Para isso, precisamos olhar para sua estrutura de propriedade, distinguindo a participação do poder público e dos investidores privados.

Nas companhias estatais, o controle pertence ao poder público e pode ser exercido por governos nacionais ou regionais. A Emirates, por exemplo, pertence ao governo de Dubai por meio da Investment Corporation of Dubai, responsável por administrar investimentos do governo.

Já as privadas pertencem a investidores do setor privado, que podem ser pessoas, fundos ou outras empresas. A American Airlines é um exemplo, com ações de seu grupo negociadas na bolsa. Nesse caso, ter capital aberto permite que investidores negociem participações no business.

Existem ainda estruturas que combinam capital público e privado. No grupo Air France-KLM, os governos da França e dos Países Baixos estão entre os acionistas, ao lado de investidores privados. A propriedade, portanto, é compartilhada entre o Estado e os particulares.

Contudo, ter participação na empresa e controlar suas decisões são coisas diferentes. Para entender quem efetivamente exerce o controle, também precisamos observar os direitos de voto e os acordos entre os acionistas. O poder de decisão de cada proprietário, incluindo os governos, depende dessa estrutura.

Com conexão, sem conexão ou um pouco de cada?

Além de saber quem controla a companhia, também precisamos observar como ela organiza as suas rotas. A estrutura da malha aérea ajuda a explicar por que algumas viagens passam por aeroportos de conexão, enquanto outras ligam a origem ao destino, sem escalas.

No modelo hub-and-spoke, a companhia concentra voos em um ou mais aeroportos, chamados de hubs, e organiza os horários para facilitar as conexões. Assim, reúne passageiros de diversas origens e os distribui entre outros destinos, permitindo atender a mercados que, isoladamente, talvez não sustentassem uma ligação sem escalas. A Copa Airlines faz isso na Cidade do Panamá, onde conecta passageiros que viajam entre diferentes cidades das Américas.

Já no modelo ponto a ponto, a prioridade está nas ligações sem escalas, sustentadas principalmente pela demanda entre as duas cidades. A EasyJet segue essa lógica em sua malha europeia. Nesse caso, os voos são planejados principalmente para atender quem começa a viagem em uma dessas cidades e termina na outra.

Nas malhas híbridas, a companhia combina centros de conexão com ligações sem escalas entre outros destinos, sem passar por esses centros. Podemos visualizar essa combinação na Azul, que concentra conexões em Viracopos, mas também opera a ponte aérea entre Congonhas e Santos Dumont. Assim, a empresa aproveita as conexões para reunir passageiros de diferentes mercados, ao mesmo tempo que atende à demanda por ligações ponto a ponto.

Os hubs também atendem passageiros que começam ou terminam a viagem naquele aeroporto e podem voar sem escalas. A classificação considera a organização da malha como um todo, entendeu?

Passageiros, cargas ou os dois?

Além de definir onde e como vai operar, a companhia precisa considerar o que será transportado. Algumas se dedicam às cargas, enquanto outras combinam o transporte de passageiros e mercadorias, inclusive no mesmo voo.

As companhias cargueiras utilizam aeronaves dedicadas ao transporte de mercadorias. Suas operações fazem parte de uma cadeia logística que pode incluir a coleta, a separação dos produtos e a entrega ao destinatário. A FedEx é um exemplo conhecido, integrando sua rede aérea ao transporte terrestre para atender clientes que precisam enviar encomendas entre diferentes regiões.

Já nas companhias de passageiros e cargas, os dois serviços podem compartilhar a mesma aeronave. Enquanto as pessoas viajam na cabine, o espaço disponível nos porões também pode ser utilizado para transportar mercadorias. Nesse caso, as mercadorias são remessas contratadas por outros clientes e dividem o espaço nos porões com as malas despachadas pelos passageiros.

O grupo LATAM exemplifica essa combinação, transportando cargas nos porões dos aviões de passageiros e mantendo uma frota de cargueiros dedicados. Dentro do grupo, algumas aeronaves atendem aos dois serviços, enquanto outras se dedicam exclusivamente às mercadorias.

Essa combinação também influencia o planejamento da operação. Ao escolher a aeronave para uma rota, a companhia pode considerar tanto a demanda de passageiros quanto a de cargas para definir a capacidade necessária. As receitas com passagens e cargas podem, portanto, contribuir para sustentar o mesmo voo.

Domésticas ou internacionais?

Seja no transporte de passageiros ou de cargas, outra diferença está na abrangência geográfica da operação. Nesse caso, a classificação considera se os voos acontecem dentro de um mesmo país ou ligam países diferentes.

As companhias domésticas operam exclusivamente dentro de um país. A Azul Conecta, com sua malha voltada a cidades brasileiras, exemplifica essa atuação. Ela também é regional pelo perfil dos mercados que atende. As companhias domésticas podem atender tanto a cidades menores quanto grandes centros urbanos.

Já as internacionais realizam voos entre países diferentes, podendo também manter operações domésticas. A GOL é um exemplo, combinando ligações entre cidades brasileiras com voos para outros países. As operações domésticas e internacionais podem, portanto, coexistir na malha da mesma companhia.

A localização da origem e do destino define essa classificação. Um voo curto entre países vizinhos é internacional, enquanto uma viagem de várias horas entre cidades brasileiras continua sendo doméstica.

Considerações

O alcance da malha, assim como o porte, a propriedade e o modelo de negócio, descreve apenas uma parte da companhia. Uma mesma empresa pode ser privada, operar voos regulares, seguir um modelo de baixo custo e atender destinos internacionais. Portanto, essas classificações se complementam.

A escolha da melhor companhia para a sua viagem depende do que cada uma oferece e das suas necessidades. Antes de comprar, vale comparar o preço total, os horários, as conexões e os serviços incluídos, considerando aquilo de que você realmente precisa.

Para quem estuda ou trabalha com planejamento de malha aérea, a análise acontece também do outro lado. Quais aeronaves, rotas e frequências fazem sentido para o serviço que a empresa pretende oferecer? Uma cargueira e uma companhia regional de passageiros têm necessidades operacionais próprias. As decisões precisam considerar essas diferenças e atender aos objetivos de cada empresa.

E você, consegue identificar em quais dessas categorias se encaixa a companhia com a qual costuma viajar? Conte nos comentários e continue acompanhando a Flylines para conhecer melhor o funcionamento da aviação. Nos vemos no próximo artigo, até lá!


Referências bibliográficas

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Sobre o autor: 
Antônio Lourenço Guimarães de Jesus Paiva 
Pai da Helena
Diretor da Flylines 
Graduado em Aviação Civil pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Planejamento e Gestão Aeroportuária pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Gestão de Marketing pela Universidade de São Paulo
Especialista em Data Science e Analytics pela Universidade de São Paulo
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