Você também pode escutar este artigo adaptado ao formato de podcast no canal da Flylines no Youtube. Para isso, basta clicar em "play".Como você sabe, está sendo impossível não acompanhar todo o hype das eleições. Mas com tantos assuntos discutidos todos de uma vez, um tema passou quase despercebido.
Certo, talvez eu esteja exagerando, ele até foi bastante discutido, contudo não na profundidade, digo, não com a tecnicidade que deveria e longe dos apelos políticos e emocionais.
Nós estamos falando da jornada de trabalho das profissões e como o Blog da Flylines trata dos assuntos relacionados à aviação, estamos falando, mais especificamente, da jornada de trabalho dos pilotos. Uma jornada de trabalho exaustiva e exigente, mas acompanhada de uma boa remuneração, um elevado nível de reconhecimento social e, cá entre nós, muito divertida.
Por isso, hoje vamos te apresentar como é a jornada de trabalho de um piloto de linha aérea na prática, o que dizem os regulamentos atuais, o lado bom, as consequências de uma jornada mal gerenciada, as nossas considerações e, claro, como ela fica com a entrada em vigor da nova lei com o fim da escala 6x1.
Fique conosco até o final! ✈️
Como é o regulamento atual?
Muito complexo e repleto de pequenos detalhes.
No Brasil, temos duas normas principais que regem a jornada de trabalho dos pilotos: a Lei do Aeronauta e o RBAC 117. A Lei do Aeronauta fala mais sobre os direitos trabalhistas, limites de jornada, horas de voo, repouso, folgas e condições de trabalho, já o RBAC 117 estabelece os limites operacionais de segurança relacionados ao cansaço dos tripulantes, portanto são normas complementares.
O nosso intuito não é exaurir completamente essas normas em todos os seus pormenores neste artigo, antes esse seria um tema para um curso ou um seminário. Desta forma, vamos abordar apenas os seus pontos mais cruciais para que você tenha uma ideia ampla dos limites legais da jornada de trabalho previstas em lei.
A Lei do Aeronauta prevê uma jornada diária máxima de 9 horas para uma tripulação com 2 pilotos e de 16 horas para uma tripulação com 4 pilotos, trabalhando em formato de revezamento, sendo 44 horas semanais de trabalho e 176 horas mensais.
Lembrando que a jornada de trabalho, nestes casos, não se resume a apenas pilotar o avião, mas a todo planejamento envolvido antes e depois dos voos.
A Lei também estabelece que quando a jornada de trabalho for de até 12 horas, o repouso mínimo deverá ser de 12 horas. Quando for de 12 a 15 horas, o repouso deverá ser de 16 horas e quando a jornada de trabalho for de mais de 15 horas, o repouso deverá ser de, no mínimo, 24 horas.
Devem ocorrer, no menor cenário, 9 folgas mensais e duas dessas folgas devem abranger um sábado e um domingo consecutivos.
Já o RBAC 117 (tal como Jaime, O Carteiro) complementa a Lei do Aeronauta com especificações técnicas estabelecidas com o intuito de evitar a fadiga e promover a segurança operacional. Como, por exemplo, que uma jornada de trabalho de 13 horas deve ter, no máximo, 10 horas de voo, variando conforme o número de etapas e tripulantes.
Um padrão, basicamente, empregado em todo o mundo.
A Lei do Aeronauta também estabelece alguns parâmetros importantes como, por exemplo, a antecedência mínima de 5 dias para publicação da escala de trabalho, o número máximo de sobreavisos mensais (até 8) e critérios para o trabalho durante a madrugada.
Se você quiser saber mais sobre essas leis e conhecer seus pormenores, deixamos uma tabela explicativa, neste mesmo artigo, no nosso blog e você pode consultar através do link na descrição.
Certo, certo, mas o quê todos esses números significam para a vida prática de um piloto? Bem, esse é o tema que vamos abordar a seguir.
O que isso significa na prática?
Significa que você vai precisar abrir mão de diversos momentos com a sua família, viver a maior parte do tempo longe dos seus parentes e amigos, estar ausente nas datas comemorativas e tirar férias, quase sempre, sozinho. Isso também significa que durante o seu tempo livre você vai estar tão cansado que, provavelmente, vai preferir dormir e descansar do que passar um tempo com toda essa galera.
Pensando bem, caso você tenha fobia social (alô, Felca!) esta não é, necessariamente, uma notícia ruim.
Mas, em todo caso, a vida prática de um piloto é tão puxada assim? Não, na verdade é pior. Mas isso tudo só pode ser culpa desse maldito "capitalismo tardio" e dessas empresas aéreas oportunistas que exploraram a mão de obra dos trabalhadores, não é verdade, camarada?
Olha, longe de mim defender as companhias aéreas, apesar de termos um flagrante conflito de interesses neste caso, uma vez que muitas delas são nossas clientes, porém, realmente, aqui, não é culpa das empresas. Veja bem, vamos imaginar um cenário hipotético em que você, depois de muitos anos juntando dinheiro, resolve comprar um pousada na praia e realizar o seu sonho de ir morar no litoral. O seu negócio vai bem, mas de agora em diante você decidiu que vai fechar aos fins de semana e vai tirar férias no verão. Não é preciso dizer que em poucos meses o seu novo empreendimento vai acabar abrindo o bico, não é verdade? Acontece que pela própria natureza do trabalho o setor aéreo vive de feriados, fins de semana e períodos de férias.
Neste sentido, como alguém poderia querer trabalhar no setor e folgar todos os finais de semana, tirar férias em dezembro/janeiro e emendar o feriadão? Seria contraditório, certo? Além disso, a carga de estresse ao pilotar uma aeronave de mais de 100 milhões de dólares com 200 pessoas a bordo é inerente e vai cobrar um preço do seu corpo em qualquer condição.
Portanto, é importante que as pessoas que desejam ingressar no setor aéreo estejam cientes desde o início dos desafios envolvidos na carreira. Mas isso quer dizer que a aviação só tem lado negativo? Não tem nada de bom na jornada de trabalho de um piloto? Claro que tem! E vamos falar sobre isso agora.
Mas tem lado bom?
Sim, o lado bom existe e pode ser melhor do que você imagina. Contudo, vamos começar falando sobre o argumento mais óbvio de todos a favor do lado bom: a remuneração.
Segundo o Portal Salário, que comparou mais de 2.600 ocupações brasileiras, a profissão de piloto encontra-se no top 9% de profissões com maior salário do país. A média salarial do cargo é de R$ 20.173 mensais e está, aproximadamente, 6,3 vezes acima da média salarial do Brasil que é de R$ 3.208. Claro, o início da carreira de piloto pode ser muito desafiador, nós mesmos já fizemos um artigo falando sobre esses desafios e você pode conferir no link na descrição, mas é certo que após se estabelecer na profissão, você tende a ser bem remunerado.
Mas ora, se você, assim como a gente, não é movido apenas por dinheiro, o nosso próximo argumento pode ser ainda melhor. Estamos falando do reconhecimento social atrelado à carreira de piloto. Para se ter uma ideia do prestígio social da carreira, uma pesquisa de 2013 realizada pelo Ibope classificou os pilotos de avião como a segunda profissão mais confiável entre as 16 profissões avaliadas, com 82% de confiança do público, atrás apenas dos bombeiros, e acima de professores, dentistas e médicos. No Canadá, a profissão de piloto é uma das 10 mais respeitadas pelos canadenses, e resultados semelhantes também foram observados em pesquisas realizadas no Reino Unido e na América. Particularmente, a impressão que tenho é que ser piloto transmite virtudes como coragem, disciplina, prudência e capacidade cognitiva.
Confiança nas profissões
Seleções / Ibope · Marcas de Confiança 2013
Porém, se prestígio social e dinheiro ainda não são tudo o que realmente importa nesta vida (e quem pensa desta forma costuma ter razão) não podemos esquecer que a realização de se tornar piloto é, quase sempre, a realização de um sonho de infância. Alfred de Vigny tem uma frase muito interessante sobre a importância desta percepção de realização na consolidação das nossas vidas:
“Uma vida bem-sucedida é um sonho da juventude realizado na maturidade.”
E se você não for um piloto da Lufthansa, uma das raras exceções neste sentido, você provavelmente estará nos 84% de pilotos que se dizem realizados em exercer a profissão, como apontado em uma pesquisa recente de satisfação conduzida pela Royal Aeronautical Society ao redor do mundo.
Duvidamos muito, mas se nada disso ainda não for motivo suficiente para você aguentar a jornada de trabalho da profissão, então, por fim, não podemos esquecer que pilotar é, provavelmente, a coisa mais divertida que alguém vai te pagar pra fazer. Não é atoa que a maioria dos pilotos quando se aposentam continuam voando por conta e/ou constroem simuladores de voo em suas próprias casas. Talvez você ainda não tenha pilotado, mas se, ao menos, já jogou uma partidinha de Microsoft Flight Simulator, você já tem uma ideia do que eu estou dizendo. Não é tão difícil ir trabalhar, todos os dias, pensando "e eles ainda me pagam pra fazer isso". E, como vimos, pagam muito bem.
Porém, nem tudo são flores e nem todos os dias você está disposto, descansado o suficiente e com a cabeça no lugar certo, daí surgem os problemas e é por isso que a gestão do descanso da jornada de trabalho é tão importante na carreira dos pilotos e é sobre isso que vamos falar a seguir.
Pausa pra falar sobre o fim da 6×1
Antes de continuarmos falando sobre a jornada de trabalho dos pilotos, vamos fazer uma breve pausa e vamos tratar sobre a polêmica do fim da escala 6x1 e como a nova lei pode afetar a carreira dos aviadores. A real é que achamos que não vai afetar. Isso porque a nova lei prevê exceções e a carreira de piloto abarca quase todas elas.
Começando pelo salário, os pilotos ganham mais de 2,5 salários mínimos e isso, por si só, já afasta o grande escopo da lei. Além disso, a profissão conta com regulamentação própria, como nós já vimos anteriormente, e faz parte de uma categoria de serviços essenciais (o transporte), que também estão, a priori, fora das novas determinações estabelecidas. Porém, dizemos "a priori" porque a Lei ainda é muito recente e os sindicatos, políticos e lobistas ainda estão começando a se movimentar para defender as suas posições. Mudanças mais drásticas podem ocorrer, principalmente, em relação aos outros cargos do setor, como comissários e pessoal de terra.
Em suma, ainda é cedo para definir o quanto, exatamente, pode mudar com a promulgação da nova lei. Mas a nossa aposta é que os pilotos de linha aérea não serão extensamente afetados em suas jornadas.
Agora, vamos voltar ao nosso tema principal.
E quais as consequências quando os pilotos estão sobrecarregados pela jornada de trabalho ou por sua má gestão?
Podem ser desastrosas.
No trabalho intitulado Fatigue in NTSB investigations realizado nos Estados Unidos, que analisou casos de acidentes ocorridos entre os anos de 2013 e 2019, foi identificado que, no setor aéreo, 28% desses casos tiveram como fator contribuinte o cansaço excessivo dos tripulantes. No Brasil, segundo dados do CENIPA, entre os anos de 2006 e 2015 foram identificados 17 casos de acidentes aéreos relacionados à fadiga.
E, apesar destas pesquisas tratarem de acidentes ocorridos anteriormente às promulgações da Lei do Aeronauta e do RBAC 117, eles ilustram como este tema pode ser perigoso, quando mal gerenciado.
E essa má gestão pode ter duas origens principais. A primeira ocorre quando a companhia aérea por falha, ou por omissão, descumpre as medidas de segurança necessárias para manter seus tripulantes descansados e longe da sobrecarga de estresse. Isso ocorre quando o mínimo de descanso não é respeitado e os limites humanos não são considerados na jornada de trabalho.
Já a segunda origem da má gestão do descanso pode vir do próprio piloto ou do seu círculo de pessoas mais próximas. De nada adianta um piloto ter o seu descanso mínimo garantido por lei e respeitado pela companhia, se ao invés de descansar, ele perde noites indo à festas, jogando videogame, praticando esportes extremamente exaustivos ou em intermináveis DRs madrugada a dentro.
Um piloto profissional precisa adotar para a sua vida um compromisso tal como faria um atleta de um esporte olímpico. Evitar excessos no consumo de álcool, ter boas noites de sono, uma alimentação equilibrada e praticar esportes, sem exagero, são algumas obrigações básicas na vida de alguém que deseja ingressar no setor aéreo.
A família, e os amigos mais próximos, também precisam estar empenhados neste processo. Evitar discussões, cobranças excessivas e respeitar o momento de descanso dos profissionais são medidas que vão tornar a jornada de trabalho muito mais fácil e gratificante à longo prazo.
Mas agora vamos embalar tudo o que discutimos hoje nas nossas considerações finais.
Considerações
Sim, meus amigos, hoje vimos como a jornada de trabalho dos pilotos de linha aérea pode ser exaustiva, apesar de bem regulamentada por normas que se complementam. Mas vimos também que, não obstante as dificuldades, essa é uma vida que vale a pena ser vivida, ao menos para a maioria. Ainda mais quando você mantém um estilo de vida saudável, trabalha em uma empresa que respeita os limites de segurança e tem familiares e amigos que compreendem a sua realidade.
Por fim, entendemos que não é por falta de regulamentação que a jornada de trabalho dos pilotos no setor aéreo seja mais difícil, e sim por questões inerentes da própria profissão e do mercado.
Esperamos que este artigo possa ter te ajudado a decidir se ainda vale a pena, ou não, ingressar nesta carreira.
Nos vemos no próximo vídeo? Tomara que sim!
Então, até lá 🖖
Referências bibliográficas
AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL (ANAC) — Regulamento Brasileiro da Aviação Civil — RBAC nº 117, Emenda nº 01: Requisitos para gerenciamento de risco de fadiga humana. 28 jun. 2024. Regulamento técnico utilizado para apresentar os limites operacionais de jornada, tempo de voo, repouso, número de etapas e critérios de gerenciamento de fadiga. Consultados especialmente os Apêndices A e B, que estabelecem condições e limites distintos para as operações. Disponível em: https://pergamum.anac.gov.br/pergamum/vinculos/RBAC117EMD01.pdf. Acesso em: 24 out. 2026.
BRASIL — Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026. Texto oficial que fundamenta a discussão sobre a redução da jornada semanal, o repouso semanal remunerado, as possibilidades de regimes diferenciados e a regra específica do artigo 8º para determinados trabalhadores com diploma superior e remuneração elevada. Disponível em: https://www.presidencia.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc141.htm. Acesso em: 24 out. 2026.
BRASIL — Lei nº 13.475, de 28 de agosto de 2017 — Lei do Aeronauta. Legislação utilizada para explicar a jornada de trabalho dos tripulantes, os limites de horas de voo, períodos mínimos de repouso, folgas, publicação das escalas e regimes de sobreaviso e reserva. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13475.htm. Acesso em: 24 out. 2026.
CASSIANO, Simone Kelli — Fadiga na aviação civil: um desafio à investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos. Revista Conexão SIPAER, v. 9, n. 3, 2018. Estudo brasileiro baseado na análise documental de relatórios finais de investigação, com 19 relatórios selecionados por identificarem fadiga como fator contribuinte. Utilizado para fundamentar os riscos da fadiga à segurança de voo e a importância dos fatores organizacionais. Disponível em: https://conexaosipaer.com.br/index.php/sipaer/article/view/569. Acesso em: 24 out. 2026.
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PARENTEAU, Michael et al. — Fatigue in NTSB investigations 2013–2019: evidence of accidents and injuries. International Journal of Occupational Safety and Ergonomics, v. 29, n. 2, p. 717–722, 2023. Estudo científico que analisou 394 investigações selecionadas de acidentes em diferentes modalidades de transporte, incluindo a aviação. Utilizado para abordar a identificação de fadiga em parte dos casos aeronáuticos analisados, sem extrapolar o percentual para todos os acidentes aéreos. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35535523/. Acesso em: 24 out. 2026.
PORTAL SALÁRIO — Piloto de Aeronaves: salário e piso salarial (CBO 2153-05). Atualizado em 8 out. 2026. Levantamento com registros do Novo CAGED utilizado para posicionar a profissão de piloto entre os 9% de ocupações com maior salário típico no Brasil, dentre mais de 2.600 ocupações. O salário-base médio apurado pelo próprio portal tem metodologia diferente do levantamento de vínculos ativos publicado pelo UOL. Disponível em: https://www.salario.com.br/profissao/piloto-de-aeronaves-cbo-215305/. Acesso em: 24 out. 2026.
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Antônio Lourenço Guimarães de Jesus Paiva
Pai da Helena
Diretor da Flylines
Graduado em Aviação Civil pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Planejamento e Gestão Aeroportuária pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Gestão de Marketing pela Universidade de São Paulo
Especialista em Data Science e Analytics pela Universidade de São Paulo