Humildade, prudência e disciplina farão de você um bom piloto


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Quando pensamos nos conhecimentos necessários para pilotar um avião, quase sempre vêm à mente o treinamento prático e o domínio técnico exigidos pela profissão, não é verdade? E isso faz sentido: meteorologia, motores, navegação aérea, regulamentos de tráfego e tantas outras disciplinas continuam sendo indispensáveis para a formação de um bom piloto. Ainda assim, fala-se pouco sobre algumas das habilidades mais importantes dessa profissão. Talvez, inclusive, “habilidades” nem seja o melhor termo para defini-las. O mais adequado, talvez, seja chamar essas “habilidades” de “virtudes”. 

Para Aristóteles, virtudes são excelências da alma: disposições estáveis que levam o homem a agir bem e a viver bem. Virtudes não são emoções passageiras, nem talentos naturais que surgem espontaneamente, mas hábitos formados pela prática, capazes de ordenar os desejos, as escolhas e as ações de acordo com a razão. Nesse sentido, três virtudes se destacam na formação do caráter de um bom piloto — e, por que não dizer, de um bom ser humano: a humildade, a prudência e a disciplina. E é sobre elas que refletiremos a seguir.

Um breve contexto

Há 16 anos, quando iniciei meus estudos no setor aéreo, ainda na Faculdade de Tecnologia e Ciências, em Salvador, um professor em especial chamou muito a minha atenção desde o primeiro dia de aula. Tratava-se de um ex-piloto da Força Aérea e da aviação comercial, com ampla formação em pedagogia, sólida experiência em Engenharia Aeroespacial e, de quebra, faixa preta em Karate-Do. Parecia ter alcançado excelência em tudo o que fazia. Seu nome era João Câncio Filho.

Câncio foi, muito provavelmente, um dos maiores exemplos que tive daquilo que se espera de um bom piloto: pontualidade, disciplina, exigência, dedicação e integridade. Certa vez, durante uma prova de Teoria de Voo, ele flagrou um aluno colando as respostas. A reação foi imediata e deixou claro que, para ele, a formação aeronáutica não admitia atalhos morais. Em um ambiente no qual esse tipo de postura nem sempre é comum, especialmente em instituições privadas, aquele episódio marcou profundamente a minha percepção sobre a aviação.

Foi ali que compreendi que não bastava dominar fórmulas, regulamentos, procedimentos e técnicas. Para estar à altura dessa profissão, seria necessário desenvolver algo mais profundo: as virtudes de um bom piloto.

Humildade

Um dia, durante uma aula de Conhecimentos Técnicos de Aeronaves e Motores, Câncio nos contou a história de um piloto da extinta Varig que, segundo o relato, teria realizado um voo de São Paulo a Salvador a apenas 500 pés de altitude, seguindo uma rota sobre o mar. A aventura talvez jamais tivesse chegado ao conhecimento da companhia se um dos passageiros não tivesse escrito uma carta elogiando aquela “experiência inesquecível”. O episódio teria provocado sua demissão da Varig e, posteriormente, sua ida para a Abaeté Linhas Aéreas, em Salvador.

Anos depois, já integrado ao novo trabalho, mas aparentemente ainda preso aos antigos hábitos, esse piloto teria aceitado realizar um voo entre Salvador e a Ilha de Itaparica durante uma forte tempestade. Outros pilotos, segundo Câncio, haviam recusado a travessia. Ele, no entanto, aceitou. A aeronave não chegou ao destino, e o caso terminou de forma trágica. Talvez possamos pensar que a prudência tenha sido a virtude que mais lhe faltou naquele dia. Mas casos como esse não revelam apenas uma simples falta de prudência. Revelam algo mais profundo: a ausência de humildade, isto é, a incapacidade de reconhecer os próprios limites, as próprias fragilidades e as impossibilidades impostas pela realidade.

Na tradição cristã, a humildade ganha um lugar central entre as virtudes, porque coloca o homem diante da verdade: a verdade sobre Deus, sobre si mesmo e sobre os próprios limites. O próprio Jesus Cristo é o maior exemplo cristão de humildade. Essa virtude também é essencial para a formação de um bom piloto. A humildade cria a abertura necessária para aprender, corrigir-se e ouvir, sem arrogância e sem prepotência. O pior aluno costuma ser justamente aquele que acha que já sabe tudo e que não há mais nada a aprender. Na aviação, o processo de aprendizagem é permanente: continua depois da formação, depois da primeira licença, depois da entrada em uma companhia aérea e mesmo depois de se tornar comandante.

Por isso, é preciso cultivar a humildade de permanecer sempre aberto ao conhecimento e às informações, que podem vir de um instrutor, de um colega, de um mecânico, de um controlador de tráfego aéreo ou de um passageiro atento, como se costuma recordar no caso do acidente do voo Varig 254, em 1989.

A humildade é, nesse sentido, a porta de entrada para todas as outras virtudes. Ela nos permite desenvolver a prudência, a disciplina, a capacidade de reconhecer as próprias falhas e a consciência de que não somos donos da verdade. Na aviação, é comum que a formação, a progressão na carreira e o crescimento dentro das companhias afastem alguns profissionais dessa virtude. Cultivá-la pode ser, portanto, um desafio. Por outro lado, esquecê-la pode custar a própria vida e a vida de pessoas inocentes.

Prudência

Uma vez que a humildade permite ao piloto reconhecer os próprios limites e abre sua consciência para a necessidade do aprendizado constante, surge uma pergunta decisiva: como ele deve agir? A resposta passa pela virtude da prudência.

Para Aristóteles, a prudência é uma virtude ligada à razão prática, isto é, à capacidade de deliberar corretamente sobre o que deve, ou não, ser feito em uma situação concreta.

O filósofo defendia que as virtudes morais, como a coragem, consistem em um meio-termo entre dois extremos. No caso da coragem, essa virtude se encontra entre a covardia, que é a falta, e a temeridade, que é o excesso. A prudência, porém, não é classificada exatamente como uma virtude moral, mas como uma virtude intelectual, ligada à razão prática. Ou seja, a prudência não é simplesmente o “meio” entre dois extremos; ela é justamente a virtude que ajuda a pessoa a encontrar o equilíbrio correto em cada situação concreta.

Na aviação, como você já pode imaginar, a prudência se torna indispensável. Sua ausência leva o piloto a tomar atitudes precipitadas, agir por impulso e decidir sem considerar adequadamente os riscos. Por outro lado, o piloto prudente também não pode ser confundido com alguém que hesita de forma exagerada ou que paralisa diante da necessidade de agir.

A prudência não é medo. Também não é temeridade. É a capacidade de avaliar a realidade com clareza, reconhecer os riscos, ponderar as alternativas e escolher a ação mais adequada diante das circunstâncias.

Nesse sentido, humildade e prudência tornam-se virtudes inseparáveis. A humildade leva o piloto a buscar o conhecimento necessário; a prudência transforma esse conhecimento em critério de ação diante dos desafios diários da profissão. Para Aristóteles, o desenvolvimento dessa virtude não nasce apenas do estudo, mas também da experiência, do hábito de pensar antes de agir e da formação do caráter. Conviver com pessoas prudentes, refletir sobre as consequências das próprias atitudes e afastar do processo decisório sentimentos como orgulho, medo, vaidade, ambição e pressa são atitudes que ajudam a formar um juízo mais prudente e equilibrado.

A virtude da prudência talvez ainda não esteja presente em todas as nossas atitudes. Pode continuar sendo difícil decidir entre prosseguir ou alternar para outro aeroporto, insistir ou interromper uma operação, avançar ou reconhecer que a melhor decisão é recuar. Mas, quando o piloto já é capaz de agir sem se deixar conduzir pelo impulso, pelo orgulho ou pelo desejo de provar algo a si mesmo ou aos outros, ele começa a governar melhor seus medos, seu ego e suas decisões. E é justamente nesse caminho que se aproxima daquilo que a aviação mais exige: um juízo seguro, equilibrado e responsável.

Disciplina

Com humildade e prudência, podemos dar o próximo passo: o desenvolvimento da disciplina. Contudo, antes de avançarmos para o seu real significado e importância, é preciso falar brevemente sobre sua formação histórica como uma forma de ordenação do tempo e da vida.

Durante muitos séculos, os mosteiros estiveram entre os ambientes em que a organização do tempo foi vivida de maneira mais rigorosa. Fora deles, grande parte da vida cotidiana seguia ritmos mais flexíveis, marcados pela luz do dia, pelas estações do ano, pelas necessidades do trabalho e pelas conveniências de cada comunidade.

Para os monges, no entanto, essa disciplina do tempo não estava ligada apenas à produtividade. Tratava-se de uma forma de ordenação moral e espiritual da vida. O horário não existia simplesmente para produzir mais, mas para formar melhor o homem: educar seus desejos, orientar suas ações e submetê-las a uma finalidade mais elevada.

Nesse sentido, uma das grandes referências da vida monástica ocidental é, sem dúvida, São Bento. Na tradição beneditina, o tempo não era algo neutro, nem um espaço vazio a ser preenchido ao acaso. Ele era organizado segundo uma regra, uma ordem e um propósito.

Os monges dividiam o dia pelas chamadas horas canônicas, isto é, momentos fixos de oração ao longo do dia e da noite. O objetivo era ordenar a vida inteira em torno de uma finalidade superior. Assim, oração, trabalho, leitura, alimentação e descanso tinham cada um o seu lugar. A disciplina, portanto, era uma forma de dar ordem à vida.

Hoje, em razão de toda a pressão social relacionada aos horários e à produtividade, a disciplina passou a ser vista menos como uma virtude voltada à formação do caráter e mais como uma obrigação prática em quase todas as profissões. Na aviação, porém, ela assume um peso ainda maior. Pontualidade, cumprimento de padrões, obediência, autocontrole e constância não são apenas qualidades desejáveis: são exigências fundamentais para que a operação aconteça com segurança, regularidade e previsibilidade.

Desta forma, cultivar a disciplina pode ser um processo bastante doloroso, principalmente, quando a sua finalidade consiste apenas em atender às demandas do mercado e da profissão. Para muitos, a pressão social de ser disciplinado pode ser uma barreira intransponível e, quase sempre, insustentável a longo prazo. Mas a resposta para o desenvolvimento desta virtude pode estar, justamente, na sua origem.

Abraçar a disciplina como um meio para o desenvolvimento do caráter, assim como faziam os monges beneditinos, é uma forma mais profunda de compreendê-la. Quando enraizada na personalidade, a disciplina deixa de ser apenas uma imposição externa e passa a ser uma força interior de ordenação. Desta forma, a disciplina não limita o homem; pelo contrário, passa a fazer parte das camadas mais profundas da sua personalidade e permite que ele organize seus desejos, seus horários, suas ações e suas escolhas em direção a um ideal mais elevado que integra a sua vida e a sua profissão.

Um piloto disciplinado não depende apenas da motivação ou do medo como ferramentas para agir no sentido correto. Chegar no horário, estudar antes do voo, respeitar os procedimentos, cumprir o checklist, obedecer aos limites da aeronave e manter a comunicação padronizada passam a ser hábitos que refletem o brilho do seu próprio caráter. É uma disciplina interna que não mais o fragmenta, mas que o ajuda a viver em comunhão com quem ele quer ser, de verdade.

Considerações

Quando compreendidas como as grandes virtudes que realmente são, a humildade, a prudência e a disciplina trabalham juntas na construção não apenas de bons pilotos, mas de bons homens.

De Aristóteles a João Câncio, percebemos que as pessoas que verdadeiramente se encontram em suas profissões são aquelas que vivem com integridade a própria vocação. São aquelas que caminham para um lugar que vai além do retorno financeiro, da validação externa e da simples produtividade mercadológica. São aquelas que cultivam dentro de si os elementos necessários para viver uma vida que, de fato, vale a pena.

Se o seu objetivo é ser piloto, ou mesmo progredir nessa carreira, cultivar essas três virtudes talvez seja o começo de um voo muito mais alto: um voo capaz de levá-lo até a última camada da atmosfera, onde o ar é rarefeito, mas o sol brilha como nunca.


Referências bibliográficas
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MACINTYRE, Alasdair — Depois da virtude. Livro fundamental da filosofia moral contemporânea, especialmente relevante para discutir a perda moderna da linguagem das virtudes e a importância da tradição na formação do caráter. Campinas: Vide Editorial.
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Sobre o autor: 
Antônio Lourenço Guimarães de Jesus Paiva 
Pai da Helena
Diretor da Flylines 
Graduado em Aviação Civil pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Planejamento e Gestão Aeroportuária pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Gestão de Marketing pela Universidade de São Paulo
Especialista em Data Science e Analytics pela Universidade de São Paulo
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