Por que não temos voos de primeira classe no Brasil?


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Você provavelmente já viu um daqueles vídeos em que o passageiro fecha a porta da própria suíte, transforma a poltrona em cama e ainda toma banho durante o voo. Na primeira classe do Airbus A380 da Emirates, tudo isso faz parte da experiência.

Enquanto isso, na econômica, você tenta descobrir de quem é o apoio de braço e como o passageiro ao lado conseguiu ocupar os dois.

O curioso é que esse luxo chega ao Brasil em voos de empresas estrangeiras, como a própria Emirates na ligação São Paulo–Dubai. Então, por que as companhias brasileiras não oferecem uma primeira classe? Faltam passageiros dispostos a pagar? O serviço custa demais? Ou as empresas preferem investir em outras opções?

Hoje vamos entender o que entra nessa decisão e como as companhias escolhem o conforto que vão oferecer a bordo. Para acompanhar essa conversa, fique conosco até o final.

Mas o que estamos chamando de primeira classe?

Antes de começarmos, vale a pena organizar os nomes dos serviços ofertados pelas companhias. A classe econômica oferece o serviço básico de viagem. A classe econômica premium acrescenta alguns confortos e benefícios, que variam conforme a companhia. Já a executiva amplia os serviços a bordo e em terra, com poltronas que viram camas em voos mais longos. Na LATAM, por exemplo, essas categorias aparecem como Economy, Premium Economy e Premium Business. Comprar apenas um assento com espaço extra dentro da categoria econômica, não significa, necessariamente um upgrade de classe.

A primeira classe internacional acrescenta exclusividade, privacidade e atendimento personalizado, podendo incluir suítes como as da Emirates ou da Singapore. A proposta envolve toda uma experiência, desde a recepção no aeroporto de origem até o desembarque no aeroporto de destino e não restringe a apenas uma simples mudança de assento.

Neste artigo, vamos tratar daquela primeira classe apresentada na introdução, com seu conjunto de serviços de luxo.

Quem vai pagar por esse luxo?

Para colocar uma primeira classe no avião, a companhia precisa estimar quantos passageiros comprariam aquele serviço, em quais rotas, com que frequência e por qual preço. Apenas ter pessoas com dinheiro no país deixa boa parte dessas perguntas sem resposta. É preciso entender quanto essas pessoas estariam dispostas a gastar naquela experiência.

Depois, entra o espaço. Uma suíte ocupa uma área que poderia receber outros assentos. Ao escolher uma configuração da cabine de passageiros em detrimento de outras, a empresa abre mão das possibilidades de ganho com as demais. É o chamado custo de oportunidade. A comparação precisa considerar as tarifas, a ocupação esperada e os custos de cada alternativa. Nessa conta, devemos incluir a instalação e a manutenção das suítes, além do atendimento diferenciado a bordo e no aeroporto.

A duração da viagem também merece atenção. Imagine quanto você pagaria para dormir em uma cama durante uma travessia noturna de dez horas. Agora pense no mesmo adicional cobrado por um voo de apena uma hora. Talvez você termine de ajustar a cama, quando começar a preparação para o pouso.

Para justificar o investimento, portanto, a companhia precisa identificar uma demanda recorrente, disposta a pagar valores que compensem os custos e o espaço destinado àquela cabine.

E quando a executiva já atende ao passageiro?

A primeira classe também precisa justificar seu preço diante de uma executiva bem equipada. Na Qatar Airways, a Qsuite oferece suítes com portas e, em algumas configurações, cama de casal. Tudo isso é vendido como classe executiva.

Agora imagine convencer esse passageiro a pagar ainda mais. Se ele já consegue dormir em uma cama e ter privacidade, quanto valeria a exclusividade adicional? A empresa precisa oferecer diferenciais que ele considere relevantes o suficiente para aceitar uma tarifa superior.

A rede de voos também importa. A Emirates reúne passageiros de diversos continentes por meio das conexões em Dubai. Esse mercado exige uma análise diferente daquela de uma ligação doméstica brasileira, tanto pelo perfil das viagens quanto pelo perfil do público atendido.

Por aqui, a LATAM também atende destinos intercontinentais e oferece categorias superiores como a Premium Business. Nesses mercados, a pergunta passa a ser se compensa acrescentar uma primeira classe ou concentrar investimentos na executiva. A escolha depende das rotas, das conexões e do tipo de experiência que a companhia pretende vender ao seu público.

Considerações

A principal explicação para a ausência de primeira classe nas companhias brasileiras é a dificuldade de justificar essa cabine economicamente diante das alternativas. Nossa leitura é que a combinação de demanda restrita, espaço ocupado e investimento necessário favoreceu a concentração do serviço de maior conforto na executiva. O histórico da TAM ajuda a entender essa escolha.

Em 2014, a companhia anunciou a retirada da primeira classe e apontou a ocupação dessa cabine como um dos fatores considerados. A proposta era melhorar a executiva e atender mais passageiros com um serviço diferenciado. Na época, a empresa explicou que esperava compensar a receita perdida na primeira classe com maior ocupação na executiva. Portanto, a decisão envolvia escolher onde aquele espaço poderia trazer mais resultado.

Isso também ajuda a responder à pergunta sobre a existência de brasileiros com dinheiro para pagar pelo serviço superior. Para sustentar uma cabine de primeira classe, precisamos considerar quantos deles escolheriam aquele serviço, naquela rota, com frequência e pagando uma tarifa suficientemente maior que a da executiva. Nos trechos curtos, ainda devemos considerar o tempo disponível para aproveitar os benefícios. Fica mais difícil justificar uma suíte quando boa parte da viagem se resume à subida e à descida.

E vale retomar a distinção inicial. Há primeira classe em voos que atendem ao Brasil, como os da Emirates entre São Paulo e Dubai. Essa oferta mostra que existe mercado para o produto em determinadas operações.

Mas a nossa conclusão é que oferecer primeira classe depende de encontrar uma combinação específica de rota, público e retorno financeiro. Para uma companhia brasileira voltar a investir nela, seria necessário demonstrar que essa configuração pode trazer mais resultado do que destinar os mesmos recursos às outras cabines.


Referências bibliográficas
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Sobre o autor: 
Antônio Lourenço Guimarães de Jesus Paiva 
Pai da Helena
Diretor da Flylines 
Graduado em Aviação Civil pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Planejamento e Gestão Aeroportuária pela Universidade Anhembi Morumbi
Especialista em Gestão de Marketing pela Universidade de São Paulo
Especialista em Data Science e Analytics pela Universidade de São Paulo
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